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Entender não significa aprender

30 de set.
3 min de leitura

Entender não significa aprender


Você já saiu de uma aula pensando:


Agora eu entendi.


O professor explicou. Você acompanhou. Tudo parecia fazer sentido.


Dois dias depois alguém pergunta sobre o assunto e…


deu branco.


Isso acontece porque compreender uma informação naquele momento e conseguir recuperá-la posteriormente são coisas diferentes.


E essa diferença é fundamental para entender como aprendemos.


ENTENDER É SÓ O COMEÇO


Quando você acompanha uma explicação clara, seu cérebro está processando aquela informação.


O problema é que isso pode produzir uma sensação enganosa:


Se está fácil de acompanhar, então eu aprendi.


Não necessariamente.


Aprendizagem envolve conseguir manter, recuperar e utilizar aquela informação posteriormente.


É justamente por isso que algumas estratégias que parecem mais trabalhosas podem produzir aprendizagem mais duradoura. Pesquisas clássicas sobre prática de recuperação mostram que tentar lembrar uma informação pode favorecer sua retenção mais do que simplesmente estudá-la novamente.


O TESTE MAIS SIMPLES?


Feche o material.


Sem consultar nada, tente explicar o que acabou de aprender.


Não conseguiu?


Excelente informação.


Você acabou de descobrir o que ainda precisa aprender.


Reler várias vezes pode aumentar nossa familiaridade com o conteúdo. Mas familiaridade não é necessariamente capacidade de recuperação.


Por isso existe uma diferença enorme entre:


Eu reconheço isso


e


Eu consigo explicar isso sem olhar.


NA GASTRONOMIA 🍳


Você assiste ao professor demonstrar uma técnica de molho.


Tudo parece óbvio.


Temperatura. Redução. Textura. Ponto. Finalização.


Então chega sua vez.


Quanto de manteiga mesmo?


Quando entra?


Qual era o ponto?


Por que isso acontece?


Porque assistir alguém executar não é igual a conseguir executar sozinho.


Uma estratégia melhor seria assistir à demonstração e, antes de consultar novamente a receita, tentar reconstruir mentalmente:


Quais eram as etapas?


Qual era a sequência?


Quais eram os pontos críticos?


Depois executar.


Você deixa de ser apenas espectador da informação e passa a tentar recuperá-la.


NO MARKETING 📱


Imagine que você acabou de estudar posicionamento de marca.


Você leu conceitos, viu exemplos e acompanhou uma apresentação.


Parece simples.


Agora feche tudo e responda:


Como você explicaria posicionamento para um pequeno empresário em 30 segundos?


Depois escolha uma cafeteria conhecida e tente identificar seu posicionamento.


A dificuldade que apareceu é importante.


Porque saber repetir uma definição e conseguir utilizar um conceito em uma situação diferente não são exatamente a mesma coisa.


NOS NEGÓCIOS 📊


Um aluno pode memorizar:


Receita menos custos e despesas…


Mas quando recebe uma pequena demonstração financeira e precisa interpretar o que está acontecendo com a empresa, trava.


O conhecimento precisa sair da definição e entrar no problema.


Por isso, em Gestão, resolver situações, interpretar indicadores, comparar cenários e justificar decisões pode ser muito mais poderoso do que apenas reler conceitos.


TESTE VOCÊ MESMO


Escolha alguma coisa que estudou recentemente.


Agora, sem abrir o material, responda:


1. O que eu lembro?

2. Como eu explicaria isso para alguém?

3. Consigo dar um exemplo diferente daquele apresentado pelo professor?

4. Onde eu aplicaria isso profissionalmente?


Só depois consulte o material.


Compare aquilo que você achava que sabia com aquilo que conseguiu recuperar.


Essa diferença é valiosa.


Ela mostra onde estudar novamente.


MAIS TEMPO ESTUDANDO = MAIS APRENDIZAGEM?


Também não necessariamente.


Existe outro conceito importante: prática espaçada.


Em vez de concentrar todo o estudo em uma única sessão, distribuir oportunidades de estudo e recuperação ao longo do tempo tende a favorecer a retenção de longo prazo. Uma ampla meta-análise sobre aprendizagem verbal encontrou forte evidência do chamado efeito de espaçamento.


Traduzindo:


Estudar três horas seguidas na véspera pode até ajudar você amanhã.


Mas estudar, recuperar, errar, corrigir e voltar ao conteúdo em momentos diferentes pode ser mais interessante quando o objetivo é continuar sabendo depois da prova.


NÃO CAIA NESSA


Se eu entendi, aprendi.


Não necessariamente.


Se eu reli cinco vezes, aprendi.


Também não necessariamente.


Se foi difícil lembrar, meu estudo deu errado.


Aqui mora uma surpresa.


O esforço para recuperar uma informação pode fazer parte do próprio processo de aprendizagem. Pesquisadores como Robert Bjork discutem há décadas situações em que condições que tornam o desempenho imediato mais difícil podem favorecer retenção e transferência posteriores.


Isso não significa que quanto mais difícil, melhor.


Significa que facilidade durante o estudo não deve ser confundida automaticamente com aprendizagem duradoura.


TESTE ISSO HOJE


Depois de estudar alguma coisa, feche tudo.


Pegue uma folha ou abra uma nota no celular.


Durante dois minutos, escreva tudo que consegue lembrar.


Depois confira.


Amanhã faça novamente.


Alguns dias depois, tente mais uma vez.


Você acabou de transformar estudar em tentar recuperar conhecimento.


O QUE LEVAR DESTE EPISÓDIO?


Aprender não é apenas colocar informação para dentro.


Também precisamos conseguir encontrá-la quando precisamos dela.


Então, da próxima vez que terminar uma aula, vídeo, capítulo ou apresentação, não pergunte apenas:


Eu entendi?


Pergunte:


Eu consigo explicar isso sem olhar?


Essa segunda pergunta pode revelar muito mais sobre o que você realmente aprendeu.

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